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VI


Justiça e progresso


A lei superior do universo é o progresso incessante, a ascensão dos seres para Deus, foco das perfeições. Das profundezas do abismo da vida, por uma rota infinita e uma evolução constante, nos aproximamos d’Ele. No fundo de cada alma está depositado o germe de todas as faculdades, de todos os poderes cabendo a ela fazê-los eclodir por seus esforços e seus trabalhos. Visto sob este aspecto, nosso avanço e felicidade futura, são obra nossa. A Graça não tem mais razão de ser. A justiça se irradia sobre o mundo porque, se todos tivermos lutado e sofrido, todos seremos salvos.


Da mesma forma, revela-se aqui em toda sua grandeza a função da dor e sua utilidade para o avanço dos seres. Cada globo, girando no espaço, é vasta oficina onde incessantemente trabalha a substância espiritual. Assim como o mineral grosseiro, quando sob a ação do fogo e da água, transforma-se pouco a pouco em metal puro, também a alma humana, sob os pesados martelos da dor se transforma e fortifica. É por meio das provas que se temperam os grandes caracteres. A dor é a purificação suprema, a fornalha onde se fundem todos os elementos impuros que nos mancham: o orgulho, o egoísmo e a indiferença. É a única escola onde se refinam as sensações, onde se aprende a piedade e a resignação estóica. Os gozos sensuais, ligando-nos à matéria, retardam nossa elevação, enquanto que o sacrifício e a abnegação, nos libertam por antecipação dessa espessa ganga, nos preparam para novas etapas, para uma ascensão mais alta. A alma, purificada, santificada pelas provas, vê cessar as encarnações dolorosas. Deixa para sempre os globos materiais e eleva-se sobre a escala magnífica dos mundos felizes. Percorre o campo sem limites dos espaços e das idades. A cada passo adiante, vê seus horizontes se alargarem e sua esfera de ação crescer; percebe mais e mais distintamente a grande harmonia das leis e das coisas, delas participando de uma maneira mais estreita, mais efetiva. Então o tempo se eclipsa, os séculos se escoam como horas. Unida às suas irmãs, companheiras da eterna viagem, prossegue sua ascensão intelectual e moral no seio de uma luz sempre grandiosa.


De nossas observações e pesquisas se destaca, assim, uma grande lei: a pluralidade das existências da alma. Já tínhamos vivido antes do nascimento e reviveremos após a morte. Esta lei dá a chave desses problemas, até aqui insolúveis. Por si só, explica a desigualdade das condições, a variedade infinita das aptidões e dos caracteres. Temos conhecido ou conheceremos sucessivamente todas as fases da vida social e percorreremos todos os seus meios. No passado, éramos como os selvagens que povoavam os continentes atrasados; no porvir, poderemos nos elevar à altura dos gênios imortais, dos espíritos gigantes que, semelhantes a faróis luminosos, aclaram a marcha da humanidade. A história deles é nossa história e, dela participantes, percorremos os seus árduos caminhos, suportamos as evoluções seculares relatadas nos anais das nações. Tempo e trabalho: eis os elementos de nosso progresso.


Esta lei da reencarnação mostra, de maneira evidente, a soberana justiça que reina sobre todos os seres. A cada vez forjamos e quebramos nossos próprios grilhões. As provas assustadoras que alguns entre nós sofrem são, em geral, conseqüência de nossa conduta passada. O déspota torna-se escravo; a mulher altiva, vaidosa de sua beleza, retoma em um corpo informe, sofredor; o ocioso torna-se mercenário, curvado sob um serviço ingrato. Aquele que tem feito sofrer sofrerá por sua vez. Inútil procurar o inferno nas regiões desconhecidas ou longínquas, o inferno está em nós, esconde-se nos recessos ignorados da alma culpada, da qual somente a expiação pode fazer cessar as dores. Não há penas eternas. Mas, dirá você, se outras vidas precederam o nascimento, por que delas perdemos a lembrança? Como poderíamos expiar com proveito quando as faltas são esquecidas?


A lembrança não seria uma pesada bola presa aos nossos pés? Penosamente saídos das idades de furor e de bestialidade, como deve ter sido esse passado de cada um de nós! Através as etapas transpostas, quantas lágrimas vertidas, quanto sangue derramado por nossos atos! Conhecemos o ódio e praticamos a injustiça. Que fardo moral seria esta longa perspectiva de faltas para espíritos ainda débeis e vacilantes!


E depois, a lembrança de nosso próprio passado não estaria ligada de maneira íntima às lembranças do passado dos outros? Que situação para o culpado, marcado pelo ferro em brasa, por toda a eternidade! Pela mesma razão, os ódios e os erros se perpetuariam, cavando divisões profundas, indeléveis, no seio desta humanidade já tão dilacerada. Deus fez bem apagando de nossos fracos cérebros a lembrança de um passado terrível. Após haver sorvido a beberagem do esquecimento, renascemos para uma nova vida. Uma educação diferente, uma civilização mais adiantada, faz desvanecer as quimeras que outrora visitaram nosso espírito. Aliviados dessa bagagem bloqueante, avançamos com passos mais rápidos nas vias que nos são abertas.


Todavia, esse passado não está apagado de tal maneira que não possamos entrever alguns de seus vestígios. Se nos desapegarmos das influências exteriores, descermos ao fundo de nosso ser; se nos analisarmos com cuidado, nossos gostos e aspirações, descobriremos coisas, em nossa existência atual e com a educação recebida, que nada poderia explicar. Partindo daí, chegaremos a reconstituir esse passado, senão em todos os seus detalhes, pelo menos em suas grandes linhas. Quanto às faltas, que implicam numa expiação necessária nesta vida, ainda que apagadas momentaneamente aos nossos olhos, sua causa primeira continua existindo, sempre visível, qual seja, nossas paixões e caracteres impetuosos, que as novas encarnações têm por objetivo domar, dobrar.


Assim então, se deixamos no limiar da vida as mais perigosas lembranças, levamos ao menos conosco os frutos e as conseqüências dos trabalhos realizados, isto é uma consciência, um julgamento, um caráter tal qual o houvermos talhado. Tudo que nos é inato não é outra coisa senão a herança intelectual e moral que as vidas desvanecidas nos legaram.


E cada vez que se abrem para nós as portas da morte, quando, liberta do jugo material, nossa alma escapa de sua prisão na carne para reentrar no império dos Espíritos, então seu passado se reconstitui pouco a pouco. Uma após outra, sobre o caminho seguido, revê suas existências, as quedas, os altos, os avanços rápidos. Julga a si mesma, medindo o caminho percorrido. No espetáculo de seus descréditos ou de seus méritos, expostos ante ela, encontra sua punição ou sua recompensa.


Sendo o propósito da vida o aperfeiçoamento intelectual e moral do ser, que condições, que meios nos conviriam melhor para realizá-lo? O homem pode trabalhar em seu aperfeiçoamento em todas as condições, em todos os meios sociais; entretanto, se sairia bem mais facilmente dentro de certas condições determinadas.


A riqueza proporciona ao homem meios de estudo poderosos; permite-lhe dar ao seu espírito uma cultura mais desenvolvida e mais perfeita; coloca em suas mãos facilidades maiores para aliviar seus irmãos infelizes, participando por meio de fundações de utilidade pública, visando o melhoramento de seus destinos. Mas são raros os que consideram como um dever trabalhar no alívio da miséria, na instrução e melhoria de seus semelhantes.


A riqueza, freqüentemente, seca o coração humano; extingue essa chama interior, esse amor ao progresso e às melhorias sociais que anima toda alma generosa; ergue uma barreira entre os poderosos e os humildes; leva a viver em um meio onde não se alcança os deserdados desse mundo e onde, por conseqüência, suas necessidades e males permanecem quase sempre ignorados e desconhecidos.


A miséria também tem seus pavorosos perigos: a degradação dos caracteres, o desespero, o suicídio. Mas, enquanto a riqueza nos torna indiferentes e egoístas, a pobreza, ao nos aproximar dos humildes, nos faz compartilhar a dor. É preciso ter sofrido, por si mesmo, para apreciar os sofrimentos do outro. Enquanto os poderosos, no seio dos honrados, invejam-se e procuram rivalizar em brilho, os pequenos, aproximados pela necessidade, vivem, por vezes, em tocante confraternização.


Observem as aves de nossa região durante os meses de inverno, quando o céu está sombrio, quando a terra está coberta de um manto branco de neve; apertados uns contra os outros, na borda de um telhado, aquecem-se mutuamente em silêncio. A necessidade os une. Mas vêm os belos dias, o sol resplandecente, a provisão abundante, e eles chilreiam, perseguem-se, combatem-se, dilaceram-se. Assim é o homem. Doce, afetuoso com seus semelhantes nos dias de tristeza, a posse de bens materiais o torna, muito freqüentemente, esquecido e duro.


Uma condição modesta convém melhor ao espírito desejoso de progredir, de adquirir as virtudes necessárias à sua ascensão moral. Longe do turbilhão dos prazeres enganadores, aquilatará melhor a vida. Solicitará da matéria o que é necessário à conservação de seu organismo, mas evitará cair nos hábitos perniciosos, tornar-se presa das inumeráveis necessidades fictícias que são os flagelos da humanidade. Será sóbrio e trabalhador, contentando-se com pouco, ligando-se, acima de tudo, aos prazeres da inteligência e às jóias do coração.


Assim, fortificado contra os assaltos da matéria, o sábio, sob a pura luz da razão, verá resplandecer seu destino. Esclarecido sobre o objetivo da vida e o porquê das coisas, permanecerá firme, resignado diante da dor; saberá fazê-la servir à sua depuração, ao seu adiantamento. Afrontará a prova com coragem, compreendendo ser salutar, que é o choque que rasgará nossas almas, e que é só por esse dilaceramento que poderá ser derramado o fel que está em nós. Se os homens rirem dele, se for vítima da injustiça e da intriga, aprenderá a suportar pacientemente seus males, dirigindo seus pensamentos para nossos irmãos mais velhos: Sócrates bebendo a cicuta, Jesus na cruz, Joana na fogueira. Consolar-se-á no pensamento de que os maiores, os mais virtuosos, os mais dignos, sofreram e morreram pela humanidade.


E quando, enfim, após uma existência bem completada, vier a hora solene, será com calma, sem pesar, que acolherá a morte; a morte, que os homens envolvem com sinistro aparato; a morte, espanto dos poderosos e dos sensuais, e que, para o pensador austero, não é mais que a libertação, a hora da transformação, a porta que se abre para o império luminoso dos Espíritos.


Esse umbral das regiões supraterrestres, flanquea-lo-á com serenidade. Sua consciência, desapegada das sombras materiais, se vestirá ante ele como um juiz, representante de Deus, perguntando: “Que fez da vida?” E responderá : - “Tenho lutado, sofrido, amado, ensinado o bem, a verdade, a justiça; tenho dado aos meus irmãos o exemplo da retidão, da doçura; tenho socorrido aqueles que sofrem, consolado os que choram. E agora, que O Eterno me julga, eis-me aqui em Suas mãos!”



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